Ponto de virada
Um bom roteiro possui vários elementos que devem estar definidos e resolvidos pelo autor: bons personagens com motivações e objetivos bem definidos, pontos de virada na história, conflitos, enredo, um bom desfecho...enfim, o básico. Podemos afirmar que o roteiro vascaíno teve um novo ponto de virada nesta semana. Nesta terça-feira, em São Januário, a chapa formada pelo ex-presidente charuteiro Eurico Miranda e Silvio Godoi obteve 93 votos contra 45 da chapa de Henrique Loureiro e o ex-mandatário Antonio Soares Calçada na eleição do Conselho de Beneméritos do clube.
Diariamente observamos os clubes e seus dirigentes anunciarem o desejo de trazer renovação, modernização e profissionalismo ao futebol brasileiro e as suas gestões nos clubes. O discurso pega bem, já que hoje as agremiações brasileiras devem impostos ao governo, possuem ações na justiça movidas por ex-jogadores e/ou funcionários, dívidas do tamanho de grandes empresas falidas, centros de treinamento sucateados, estádios ultrapassados, falcatruas com as receitas obtidas... enfim, a história todo mundo conhece. O difícil é colocar isso em prática.
O próprio time da Colina, destacado nesse texto, está na lista dos que estão mal na foto. O departamento jurídico do clube fez um levantamento e contabilizou 518 ações na justiça, sendo 286 trabalhistas, 59 tributárias, 131 cíveis e 42 fiscais. Segundo o último balanço do clube feito em 2009, o Vasco teria um saldo negativo de R$103 milhões devido às ações considerando inclusive as ainda não julgadas pela justiça brasileira. Muitas delas, ou todas, adquiridas por administrações anteriores um tanto quanto questionáveis.
O reflexo do calvário vascaíno foi a queda para a segunda divisão. Muitos culparam a administração do poderoso e folclórico Eurico Miranda, que, posteriormente, foi substituído pelo maior ídolo do clube, o craque e referência Roberto Dinamite.
O Vasco deu a volta por cima em 2009 dentro de campo: fez uma bela campanha na Copa do Brasil e venceu a série B. Subiu com dignidade e encheu a torcida de orgulho.
Agora resta saber se a torcida ficará feliz com a notícia destacada logo no início do texto. Algumas das funções mais importantes, a meu ver, do tal Conselho já citado são destacadas abaixo e estão no estatuto do clube:
CAPÍTULO X
DO CONSELHO DE BENEMÉRITOS
Art. 86º - O Conselho de Beneméritos, de caráter permanente, Poder Moderador do Clube, compõe-se dos sócios Grandes Beneméritos e Beneméritos, integrando-o, ainda, quando em exercício, o Presidente da Assembléia Geral, o Presidente do Conselho Deliberativo, o Presidente do Conselho Fiscal e o Presidente da Diretoria Administrativa.
Art. 87º - Compete ao Conselho Beneméritos:
I - Outorgar títulos de Grande Benemérito, expedindo os respectivos diplomas, e apresentar parecer relativo à outorga dos de Benemérito, Emérito e Honorário, observado o disposto nos parágrafos 1º e 2º do Artigo 12.
II - Exercer fiscalização direta sobre a administração do patrimônio social.
III - Sugerir e acompanhar iniciativas da Diretoria Administrativa julgadas de alto interesse para a vida do Clube, reunindo-se para esse fim a pedido de qualquer dos seus membros, feito ao respectivo Presidente, e opinar sobre assuntos de relevância sempre que solicitado pela Diretoria Administrativa.
IV - Opinar sobre flação ou desflação do Clube, sobre suas atividades e suas político-desportivas locais ou regionais.
V - Opinar sobre a revisão dos preços dos títulos de Sócio Proprietário, taxas e mensalidades, submetendo suas conclusões a apreciação do Conselho Deliberativo.
VI - Opinar sobre doações ou legados feitos ao Clube.
VII - Convocar, mediante solicitação prévia ao Presidente de Conselho Fiscal e ao Presidente da Diretoria, membros desses Poderes para o fim de prestar informes e esclarecimentos sobre matéria indicada na convocação.
Como se observa, o Conselho tem um poder razoável para opinar na vida do clube, fiscalizando e cobrando. A grande questão é..se um clube grande como o Vasco possui pessoas com tal poder por que a instituição sofreu tanto? Ou melhor, reformulando..será que o tal Conselho trabalhava movido pelo interesse e amor pelo Vasco, obrigação dos membros, ou por possíveis facilidades e/ou interesses políticos e/ou econômicos oferecidos pela gestão da época?
O fato é que o Vasco da Gama limpou o escritório da presidência, mas o pó voltou menos de dois anos depois de ter sido varrido para fora do clube. E voltou com voz ativa na presidência do Conselho até meados de 2013 com o apóio de membros ligados diretamente ao clube, comprovando que os únicos que sofrem com as decisões de poucos são os milhões de fanáticos torcedores.
É verdade que Eurico não retorna ao clube com o poder de antes, o de dono, rei, tirano ou simplesmente presidente, como prefirirem, mas o próprio Roberto Dinamite admite que o ex-mandatário terá voz ativa ecoando por São Januário e que ambos deverão conviver em harmônia pelo bem do Vasco, mesmo que existam diferenças políticas.
O retorno de Miranda à Colina certamente ocasionará uma divisão na vida política do Vasco, justamente em uma época que o clube busca paz e estabilidade para se consolidar novamente entre os grandes do país, lugar que merece ocupar por sua tradição, história e torcida. Outro ponto preocupante é que o clube ficou anos nas mãos do dirigente, acumulou problemas..e agora? Será que Eurico será coadjunvante ou briga para explodir o mocinho Dinamite e voltar ao papel de protagonista que tanto adora? Em breve nos cinemas, ou melhor, nos noticiários esportivos.



